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Volta ao mundo em 103 linhas

Felipe Lobo, 21 de dezembro de 2009.

*Foto gentilmente cedida por Gustavo Faleiros, publicada no site O Eco (www.oeco.com.br)

Felipe Lobo

As cortinas fecharam em Copenhague, mas não houve aplauso. Era a manhã de sábado e, naquele instante, terminava o show de horrores instalado no Bella Center duas semanas antes. O espetáculo sequer deu o ar de sua graça e foi adiado para outras praças, por tempo indeterminado. A expectativa é de que ele aporte na Cidade do México, em meados do próximo ano. Mas, a julgar pelas toneladas de gases estufa esparramadas (em vão) na atmosfera pelos aviões que saíram de 192 países em direção à Dinamarca, não há como garantir absolutamente nada.

A COP-15 foi um fracasso completo. Os negociadores e líderes de Estado e de Governo foram incapazes de costurar um acordo vinculante durante o tempo em que estiveram reunidos no frio europeu. Além de não ouvirem os relatos científicos de seus pesquisadores, segundo os quais o impasse ecológico é, acima de tudo, civilizatório, eles também renegaram as premissas estabelecidas em Bali, há dois anos. Quem foram os autores dessas diretrizes? Os mesmos personagens responsáveis pela frustração que deu origem a este texto.

A 15ª Conferência das Partes da Convenção do Clima, organizada pelas Nações Unidas, era a crônica de um desastre anunciado. Em novembro, Barack Obama e Wen Jiabao (presidentes, respectivamente, de Estados Unidos e China) foram claros ao dizer: não existe a menor chance de um acordo formal e detalhado sair dos corredores climatizados por onde circulariam os olhos e corações do planeta um mês adiante. Eles acertaram na mosca, mas não se tratava de simples exercício de futurologia. A verdade é que as cartas já estavam na mesa, enquanto as mangas, vazias.

O valor do encontro se mostrou através do credenciamento de jornalistas ao longo dos meses que o antecederam. Mais de cinco mil profissionais de rádio, televisão, jornal impresso e web solicitaram a oportunidade de cobrir as reuniões. Deles, 3.500 receberam o passe de acesso. Em seguida, os erros se sucederam. Apesar de o Bella Center comportar apenas 15 mil pessoas, o chefe da ONU para o Clima, Yvo de Boer, distribuiu 45 mil crachás, entre delegados e membros de organizações não-governamentais.

Ele acreditava que haveria enorme movimentação dentro e fora do centro de convenções, com entradas e saídas freqüentes, o que espantaria a superlotação. Cálculo mal feito, todos queriam acompanhar tudo de perto. A solução foi reduzir consideravelmente o acesso de manifestantes e ativistas. Nova bola fora, já que tirou a voz da sociedade civil, ávida por mudanças urgentes na forma pouco carinhosa com a qual se vê a natureza nas cúpulas oficiais e ministérios das nações presentes.

A COP15 deveria ter chegado ao fim na sexta-feira, dia 18. Mas não havia documento unânime preparado e nenhuma satisfação para dar ao mundo, que aguardava atentamente o desfecho da reunião climática mais importante da história – ainda superior a Quioto, cidade japonesa que firmou o único acordo de combate ao aquecimento global conhecido pelo planeta. A madrugada de quinta para sexta foi tomada por conversas intensas entre os líderes políticos. Em vez de boas notícias, apenas novas dúvidas pairavam no ar.

O mundo noticia

O dia transcorreu como nos segundos finais de uma final de Copa do Mundo empatada: todos estressados, tensão no ar, indefinições. Os jornalistas corriam atrás de fontes, como explica a repórter de O Eco, Cristiane Prizibisczki, na matéria “Antes do Fim”, enquanto novas versões de um possível “Acordo de Copenhague” eram disparadas em sequência. A cada vez, o texto aparecia menos robusto, com pouquíssimas informações e acertos.

No meio da tarde, após um discurso inflamado de Lula (que recebeu quatro aplausos em 15 minutos, de improviso) e outro morno de Obama, China, Brasil, África do Sul, Índia e Estados Unidos (os chamados Basic+EUA) se fecharam em uma sala. O senso de emergência era claro, assim como a ruína do evento. Depois de mais de quatro horas, um documento de 12 parágrafos estava pronto e foi submetido à aprovação de 30 países. Enquanto alguns políticos bradavam a vitória aos quatro ventos, outros lembravam que, de acordo com as regras das Nações Unidas, qualquer relatório deveria ser votado em plenária. Bastava uma oposição para que ele não fosse aceito.

Em vez de uma, vieram cinco. Mas Barack Obama, Lula e seus principais negociadores não estavam mais lá para ver. Visivelmente incomodados (pela própria incompetência, diga-se de passagem), se despediram de Copenhague antes de encerrada, oficialmente, a COP. No início da madrugada, o líder do G77 (grupo de emergentes + países insulares), Lumumba Di-Aping, afirmou que não aceitava o acordo. Durante a plenária, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Tuvalu e Cuba o rechaçaram. Por isso, apenas tomou-se nota da declaração final, com duas listas: uma de países favoráveis; outra, dos contrários.

Mesmo entre os que assinaram o acordo, o clima de decepção era visível. Os Estados Unidos, por exemplo, não aceitaram aumentar a meta de reduzir, até 2020, 17% de suas emissões baseadas em 2005 – o que significa uma melhora de apenas 4% em relação a 1990, ano base de Quioto. Gustavo Faleiros, editor do O Eco, explica, na reportagem “Copenhague: acordo furado”, que José Manoel Barroso, comissário do bloco da União Européia, ficou desapontado com o resultado das negociações, apesar de apoiá-lo. O desapontamento (e, por que não, a vergonha) era tão grande, que nem a tradicional foto com os chefes de Estado foi tirada.

No sábado à tarde, os jornais de todo o globo repercutiam o jogo de cena encerrado naquela manhã. O italiano Corriere Della Sierra, em seu primeiro parágrafo, atacou a diferença de postura entre os mandatários de dois dos mais ricos países presentes à COP. Enquanto Obama saudava um “acordo histórico, apesar de ser somente o primeiro passo”, o francês Nicolas Sarkozy reclamava: “fechamos um acordo medíocre”.

Já o Le Monde, jornal mais conceituado da terra de Sarkozy, disse que, quando fala-se em mudanças climáticas, é possível avançar muito pouco sem a adesão firme do G2 – uma referência a chineses e norte-americanos. O espanhol El País, na matéria que resumiu o último dia de discussões, ressaltou a posição da pequena Tuvalu, uma das primeiras ilhas a sumir do mapa caso o nível dos oceanos continue a aumentar. Para seu porta-voz, “a forma pela qual o texto foi gerado é uma falta de respeito aos processos da convenção. Outros países têm mais respeito pelos processos democráticos”.

O britânico The Guardian, em seu site, lembrou que o “Acordo de Copenhague” determina que a temperatura média do planeta deve subir em, no máximo, 2ºC, mas não enumera qualquer piso de redução das emissões em curto, médio ou longo prazo para atingir a meta. O New York Times, por sua vez, declarou que o caos instaurado durante toda a COP-15 levou diversos participantes a questionarem a validade do sistema de Convenções-Quadro das Nações Unidas, cuja estreia aconteceu no Rio de Janeiro, em 1992.

A verdade inconteste dos fatos é que nenhum alvo de redução nas emissões faz parte do texto. Nem mesmo os 50% nos lançamentos de carbono globais até 2050, que tanto se falou nos últimos 15 dias. Tudo o que se esperava de avanço ruiu. Ficaram os valores do Fundo Imediato: 30 bilhões de dólares para os países mais vulneráveis entre 2010 e 2012. É pouco. Chega a ser assustador.

Reuniões do clima, feito a COP-15, diferente de qualquer jogo de futebol ou festival de música, não levantam bandeiras de uma única nação e, tampouco, elegem vencedores ou perdedores. Na verdade, devem ser, basicamente, uma questão de justiça, seja ela com as populações à margem dos direitos humanos espalhadas pelos quatro cantos do globo (e que, não por acaso, são as primeiras a sofrer com a alteração nos ciclos da natureza) ou com as centenas de milhares de espécies que, conosco, formam uma rede viva e interligada de relações.

A nós, cabem as mudanças simples e práticas cotidianas, como desligar as luzes ao sair dos cômodos ou deixar o carro na garagem. E, acima de tudo, deixar acesa a chama da indignação. Mas que ela não seja superior à da leveza, necessária para exigir pacificamente políticas públicas arrojadas – e essencial para acreditar que ainda há alternativas.

Em resumo, a convenção de Copenhague, como era previsto, entrou para a história. Não como o encontro que originou o primeiro e enorme passo no combate às mudanças climáticas em busca de um novo paradigma, mas como um exemplo objetivo de tudo o que não se deve fazer quando a vida (seja ela qual for) está em jogo.
 

Fontes consultadas para este artigo

O Eco
http://www.oeco.com.br/copenhague/111-copenhague/23162-copenhague-acordo-furado

e

http://www.oeco.com.br/copenhague/111-copenhague/23163-antes-do-fim

Corriere Della Sierra
http://www.corriere.it/scienze_e_tecnologie/speciali/2009/summit-copenaghen/notizie/obama-per-chiudere_c2a72a02-eb9d-11de-b41e-00144f02aabc.shtml

Le Monde
http://www.lemonde.fr/le-rechauffement-climatique/article/2009/12/19/les-affaires-du-monde-soumises-au-tandem-chine-etats-unis_1283085_1270066.html#ens_id=1275475

El Pais
http://www.elpais.com/articulo/sociedad/Cumbre/Clima/aprueba/medio/gran/polemica/pacto/minimos/elpepusoc/20091219elpepusoc_2/Tes

The Guardian
http://www.guardian.co.uk/environment/2009/dec/18/copenhagen-deal

The New York Times
http://www.nytimes.com/2009/12/20/science/earth/20accord.html?_r=1&ref=global-home

 


 


 



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