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Uma verdade inconveniente: o aquecimento global

Felipe Lobo, 24 de setembro de 2008.

As evidências científicas sobre o problema do aquecimento global nunca foram tão sólidas. Ele se afigura como o mais sério, e possivelmente o mais intratável, de todos os problemas ambientais já enfrentados pela humanidade. Mais sério por afetar o envelope que nos envolve: a atmosfera. Mais intratável pelo fato de seu necessário equacionamento ter de alterar a própria maneira pela qual nossa civilização se estruturou e se desenvolveu: fortemente dependente do uso de combustíveis fósseis, cuja queima é a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa, raiz do problema.

Fica patente que o problema do aquecimento do planeta é extremamente sério, e que demanda uma resposta global extremamente urgente também. As evidências são crescentes de que os custos da inação excedem, em muito, os custos econômicos de se enfrentar a nova realidade o mais rapidamente possível.

O problema físico do aquecimento global

A temperatura média global do planeta é de cerca de 14oC. Dois fluxos de energia determinam esta temperatura média. Primeiramente, a energia vindo do sol na forma de luz solar. Esta energia aquece a superfície do planeta e a atmosfera. Adicionalmente, devido ao fato de a superfície do planeta ser mais quente que o espaço sideral, radiação infravermelha é emitida por toda a superfície terrestre. Isto ajuda a esfriar a superfície da Terra.

O balanço entre estes dois fluxos de energia determina a temperatura superficial média global do planeta. Para se entender o efeito estufa na Terra uma boa analogia é se entender como funciona uma estufa propriamente dita. Ela é mantida aquecida devido ao fato de a energia emitida pelo sol, na forma de luz visível, ser capaz de atravessar o vidro desta e aquecer o solo e as plantas em seu interior. Mas a energia que é emitida pelo solo e pelas plantas está na forma de radiação infravermelha invisível, e não consegue passar facilmente através do vidro da estufa. Assim, parte da energia térmica infravermelha fica retida na parte de dentro da estufa, esquentando-a.

Esta é a analogia que pode ser feita com o que vem ocorrendo com o planeta Terra desde a Revolução Industrial, basicamente. Os gases de efeito estufa (dióxido de carbono CO2, metano – CH4, óxido nitroso – N2O, e vários gases industriais como os CFCs, HFCs, HCFCs, PFCs, SF6), quando emitidos a taxas elevadas, vão se acumulando na atmosfera terrestre, permitindo que a radiação solar incidente continue a atingir a superfície do globo, na medida em que estes gases lhe são relativamente transparentes, mas dificultando que parte da radiação infravermelha emitida pela superfície da Terra consiga ser dissipada, já que estes mesmos gases lhes são relativamente opacos. É justamente este desbalanceamento que tem levado a temperatura média do planeta a se elevar ao longo do tempo.

À bem da verdade, existe um efeito estufa natural que já tem operado por bilhões de anos. Os gases que realizam este serviço, no caso do efeito estufa natural, são principalmente o vapor d’água (H2O) e o próprio CO2. Na ausência do efeito estufa natural produzido pelo vapor d’água, CO2, CH4 e outros gases na atmosfera, a temperatura média do planeta seria cerca de 30oC mais baixa do que é atualmente, tornando o planeta inabitável.

A preocupação é justamente o fato de as atividades humanas estarem elevando a concentração na atmosfera de gases de efeito estufa muito acima dos níveis considerados naturais.

As principais fontes de emissão de CO2 desde o período pré-industrial são, nesta ordem, a queima de combustíveis fósseis – petróleo, carvão e gás natural, responsáveis, respectivamente, por 34,3%, 25,1% e 20,9% da oferta mundial de energia primária em 2004 –, e as mudanças no uso da terra – desmatamento, queimadas etc. Enquanto que as emissões fósseis de CO2 atingiram cerca de 27,5 bilhões de toneladas (27,5 GtCO2) em 2005, contra 22,0 GtCO2 em 1990, as emissões relacionadas com as mudanças no uso da terra são estimadas entre 1,8 e 9,9 GtCO2 por ano na década de 90, apesar da grande incerteza associada a estas últimas cifras.

Desde 2001, ano da publicação do Terceiro Relatório de Avaliação do IPCC, a compreensão, por parte dos cientistas, das influências antrópicas no aquecimento (e resfriamento, já que alguns gases, como os aerossóis, têm sabidamente um papel de resfriamento do planeta) aumentou muito. Isto fica bastante evidente nas observações dos aumentos das temperaturas médias globais do ar e dos oceanos, do derretimento generalizado de neve e de gelo, da elevação do nível global médio do mar, além de numerosas mudanças na quantidade de precipitação, salinidade dos oceanos, padrões de vento, e aspectos de eventos climáticos extremos como secas, precipitações fortes, ondas de calor e intensidade dos ciclones tropicais.

Para as próximas duas décadas projeta-se um aquecimento médio para o planeta de cerca de 0,1-0,2oC por década, dependendo de as concentrações de todos os gases de efeito estufa e aerossóis se manterem constantes nos níveis do ano 2000, ou de as tendências recentes de aumento de emissões se reproduzirem. Nos últimos 100 anos a temperatura média do planeta se elevou em cerca de 0,7oC.

Os possíveis impactos do aquecimento global

Há uma alta confiança de que, devido a mudanças na neve, no gelo e em solos congelados, vários sistemas naturais já estão sendo afetados. Também vários tipos de sistemas hidrológicos estão sendo afetados em todo o mundo e sistemas biológicos terrestres, marinhos e de água doce.

O entendimento dos principais impactos futuros como função do aumento da mudança da temperatura global média é crescente. Esperam-se impactos tais como:

  • Água: aumento da sua disponibilidade nos trópicos úmidos e nas altas latitudes; redução da disponibilidade e aumento das secas nas latitudes médias e nas latitudes baixas semi-áridas; centenas de milhões de pessoas expostas ao aumento da sua escassez.
  • Ecossistemas: já a partir de 1 oC de aumento médio da temperatura em relação a 1980-1999, cerca de até 30% das espécies correndo risco crescente de extinção; e a partir de 2,5-3 oC riscos de extinções significativas por todo o globo; aumento do branqueamento de corais, podendo levar a uma mortalidade generalizada destes; aumento das alterações na distribuição das espécies e do risco de incêndios florestais.
  • Alimentos: impactos negativos localizados e complexos nos pequenos proprietários, fazendeiros de subsistência e pescadores; tendências de redução da produtividade dos cereais nas latitudes baixas, e nas latitudes médias e altas tendências de aumento da produtividade de alguns cereais para aumentos médios de temperatura a partir de 2,5 oC, também em relação a 1980-1999.
  • Litoral: aumento dos danos decorrentes de inundações e de tempestades; e a partir de 4 oC de aumento médio da temperatura em relação a 1980-1999 risco de perda de cerca de 30% das várzeas costeiras globais e milhões de pessoas a mais podendo ser atingidas por inundações costeiras a cada ano.
  • Saúde: aumento do ônus decorrente de má nutrição, diarréia, doenças cardio-respiratórias; aumento da morbidade e da mortalidade resultantes de ondas de calor, inundações e secas; alteração na distribuição de alguns vetores e de doenças; ônus substancial nos serviços de saúde.

Ainda que já estejam ocorrendo, são extremamente limitados os esforços até agora empreendidos de adaptação à futura mudança do clima. Entretanto, sabe-se já hoje que, para além das alternativas de mitigação necessárias, esforços tecnológicos – na forma de obras de engenharia para conter o alagamento de zonas costeiras, por exemplo –, esforços de gestão e mesmo mudanças comportamentais, tudo isto será necessário para que a sociedade humana possa melhor lidar com esta nova problemática ambiental que se lhe coloca.

*Roberto Schaeffer é pós-doutor em Política e Manejo de Energia pela Universidade da Pensilvânia (EUA) e Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU e autor de um dos capítulos do Terceiro Relatório de Avaliação do IPCC.

 


 


 



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