A generosa distribuição das jaguatiricas pelo Brasil não tem sido suficiente para assegurar o que se pode chamar de uma população pomposa. Desfilando com seu corpo manchado por todos os biomas brasileiros, o animal já não precisa usar as longas patas para fugir da gana humana por pele felina. Mas se a caça deixou de representar um perigo latente ao Leopardus pardalis, as árvores que caem por todo o Brasil o empurraram para a lista da fauna ameaçada de extinção.
No último mês de maio, o Banco Mundial divulgou um relatório em que o Brasil aparece como número um no desmatamento global. Somente entre 2000 e 2005, uma extensão de 155 mil quilômetros quadrados de florestas foi ao chão. O documento destaca, em números, como a devastação jogou toneladas de gases estufa na atmosfera. Mas não põe na ponta do lápis os milhares de bichos que estão perdendo suas casas.
“A jaguatirica ocorre na Amazônia, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica. A distribuição é ampla, mas a perda de ambiente, a destruição das florestas é uma enorme ameaça”, afirma o biólogo Marcelo Lima, da divisão de proteção de espécies terrestres do Instituto Chico Mendes (ICMBio). Segundo o técnico do órgão federal, não há dúvidas de que o retalhamento das matas brasileiras é o maior inimigo atual contra a fauna terrestre. E o recorte dos habitats, frisa, desencadeia uma série de outros perigos: “Com estradas cortando as florestas, não é difícil morrer bicho atropelado. E com fazendas no meio do caminho, as jaguatiricas atacam galinheiros e passam a ser perseguidas”.
Desde que o mercado de peles foi legalmente abafado, diminuiu muito o número de armas que apontam para o pardalis. Nas décadas de 1960 e 1970, a espécie foi extremamente comercializada, chegando a representar, durante esse período, o maior percentual mundial de peles vendidas. “Hoje, isso está proibido. Alguns animais ainda são mortos ou comercializados, mas numa escala mais local, especialmente quando predam em galinheiros ou em casos de venda de filhotes vivos. Mas não chega a ser representativo”, afirma o biólogo Tadeu Oliveira, da Universidade Estadual do Maranhão e membro do Instituto Pró-Carnívoros. “É evidente que a perda de habitat é hoje a maior ameaça à espécie”.
Fragmentos
É inegável que a substituição de largas extensões de vegetação por pastagem, lavouras ou estradas tem dado um duro golpe na população dos felinos silvestres. Porém, o que mais preocupa os especialistas é o fato de que os remanescentes florestais estão em sua maioria fragmentados. “Se há uma população num fragmento muito pequeno, animais aparentados acabam reproduzindo entre si, gerando problemas genéticos futuros”, explica o biólogo do ICMBio.
“O retalhamento das florestas e demais ambientes naturais onde a jaguatirica ocorre acaba impedindo o fluxo gênico. Isso leva a um aumento da consangüinidade, tornando os indivíduos mais vulneráveis a doenças e a uma série de fatores. Dependendo do grau de consangüinidade, isso degenera a população a tal ponto que ela desaparece”, alerta Oliveira. “Esse fluxo gênico mantém a variabilidade genética, que por sua vez permite que a espécie possa ter a capacidade de adaptação às mudanças do meio. Assim transcorre o processo evolutivo”, completa.
Por esse motivo, uma das principais medidas de preservação da espécie está focada não no animal, mas em seu habitat. A criação de unidades de conservação com o fim de conectar as matas que ainda permanecem de pé é uma ação estratégica para tirar o pardalis da categoria de vulnerável. “A idéia é tentar fazer corredores unindo os fragmentos florestais. Dessa forma, os indivíduos podem circular, garantindo a manutenção da variabilidade genética”, diz Lima.
Reserva garantida
Como normalmente ocorre com os animais que ganham carimbo vermelho nas listas de fauna ameaçada, as jaguatiricas já são encontradas em cativeiros pelo Brasil. Os abrigos são poucos, mas os animais, já se tem aos montes. “Não recomendamos a reprodução da espécie em cativeiro porque temos muitos indivíduos e pouco espaço físico”, afirma Marcelo Lima. “O problema hoje é a falta de ambiente para reintroduzir”.
O técnico do ICMBio explica que o método é uma garantia para o caso do desaparecimento futuro da espécie em seus habitats naturais. “A idéia é ter um banco de indivíduos, uma população geneticamente conhecida para, se necessário, fazer sua reintrodução mais para frente”, justifica, acrescentando que alguns animais como o cavalo selvagem da Mongólia e o órix da Arábia só existem hoje devido a experiências em cativeiro.
No entanto, os especialistas ressaltam que a criação dos felinos em habitats reproduzidos é muito mais complexo do que parece. A soltura é um ponto complexo do processo. “Muita gente acha que é só soltar o bicho na mata, que ele está feliz porque está no mato. Mas isso tem que ser feito com muito cuidado e critério. A espécie pode encontrar concorrência com outros indivíduos que já habitam determinada região, por exemplo”, cita Lima.
Oliveira ratifica: “A reintrodução não é uma mera soltura, mas todo um processo a longo prazo que implica em monitoramento, adaptação e no caso de predadores, um treinamento predatório”, diz, ao lembrar que cada animal pode apresentar comportamento e reação distintos quando sai de um ambiente artificial para um enorme espaço natural. O especialista, no entanto, destaca que alguns testes preliminares indicam que os felinos estão se saindo bem na experiência.
Apesar de praticamente terem sumido da Matas Atlântica e da Caatinga, as jaguatiricas ainda encontram relativo sossego na farta floresta Amazônica. Mas conforme os dados do Bird mostraram, a depredação das áreas verdes avança a passos largos. E o bioma que ainda é considerado porto-seguro para incontáveis espécies de fauna e flora tem disputado uma incessante queda de braço com a expansão do gado, soja e companhia. “Se continuar as coisas do jeito que estão, a tendência é que a jaguatirica entre em extinção daqui a 40, 50 anos”, prevê Marcelo Lima. Não só as jaguatiricas.
*Bernardo Câmara é estudante de jornalismo da PUC-Rio e foi repórter do site O Eco. Atualmente, está na Amazônia com o projeto Unicom, da mesma universidade.



