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British Council Entrevista – Alexandre Alencar

Felipe Lobo, 2 de setembro de 2008.

Nota: Na última edição, o Oikos Já! Publicou um artigo escrito por Camila Leporace, analista de e-marketing do Projeto de Mudanças Climáticas da British Council, sobre a Antártica. Agora, para fechar esta série, divulgamos uma entrevista que ela fez para o site do programa De Olho No Clima com o pesquisador Alexandre Alencar. Ele voltou há pouco do continente gelado e tem muitas histórias para contar.

Dando continuidade à nossa série de artigos sobre a Antártica, entrevistamos o pesquisador Alexandre S. Alencar, que acaba de chegar de mais uma de suas viagens ao continente gelado. Ele ficou acampado numa região da Península Antártica conhecida como Platô Detroit, a cerca de dois mil metros de altitude e com uma temperatura média de -15 graus centígrados. A expedição teve como principal objetivo entender como as mudanças climáticas ocorridas na região podem afetar os sistemas locais.

Alexandre é graduado em Biologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com mestrado e doutorado desenvolvidos no Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (LARAMG), na mesma universidade. Parte do seu doutorado foi realizado no Laboratoire de Glaciologie et Géophysique de l’Environnement, na França. Atualmente, desenvolve seu pós-Doc no Laboratório de Oceanografia Física, Clima e Criosfera da Universidade de São Paulo (USP). O pesquisador vai periodicamente à Antártica – pelo menos uma vez ao ano, desde quando começou a participar do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). A primeira vez em que ele steve no continente gelado foi em 2002, quando fazia mestrado e viajou como colaborador em um projeto que estava sendo desenvolvido por outro mestrando do LARAMG. Muitas das viagens são realizadas em equipe, mas às vezes Alexandre e outros cientistas precisam viajar sozinhos, de acordo coma s necessidades de cada projeto em que estão envolvidos.

Quando pesquisadores brasileiros como Alexandre vão à Antártica, eles ficam na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), onde desenvolvem pesquisas com o apoio da Marinha e da Aeronáutica Internacional. No caso de Alencar, ele costumava ficar na estação, mas nas duas últimas expedições de que participou, em virtude da necessidade de seu trabalho, ficou em acampamento. O período de uma expedição à Antártica varia de acordo com a pesquisa a ser desenvolvida.

Leia abaixo a entrevista completa com Alexandre Alencar.

De Olho no Clima: Quais os estudos que você faz, relacionados a essas viagens?

Alexandre Alencar: A equipe do nosso laboratório está envolvida em diferentes linhas de pesquisas relacionadas ao estudo das mudanças climáticas na região da Península Antártica, onde esta localizada a EACF, e as interações entre esta região e o continente sul-americano. No projeto de pós-doutourado que estou desenvolvendo, estou principalmente interessado na interação oceano-atmosfera-criosfera. Estamos investigando a variabilidade do gelo marinho ao longo dos anos nesta região, através da análise de um composto depositado no gelo que pode indicar como ocorreu esta variação. Um melhor conhecimento da variabilidade do gelo marinho na região da Península Antártica, pode nos ajudar a compreender as mudanças climáticas ocorridas na região. Além disso, este gelo marinho tem grande importância no processo de formação e deslocamento das correntes marinhas que interagem com diversos oceanos do planeta.

DONC: Como foi a última viagem, em que você acampou por lá?

AA: Na ultima expedição cientifica, participei de um acampamento em uma região da Península Antártica conhecida como Platô Detroit, localizado a cerca de 2000m de altitude e com uma temperatura média de -15oC. Os trabalhos de pesquisa desenvolvidos neste acampamento estão relacionados ao projeto denominado Expedições multidisciplinares brasileiras ao manto de gelo Antártico: investigando a resposta da criosfera ao aquecimento global, coordenado pelo Dr. Jefferson C. Simões da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Este projeto internacional, que faz parte das iniciativas brasileiras no âmbito do Ano Polar Internacional (API 2007/2008), é desenvolvido numa parceria entre instituições nacionais e internacionais. Entre as nacionais, temos: UFRGS, UERJ, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Observatório Nacional (ON). As internacionais são representadas pelo CCI (Climate Change Institute/USA) e pelo Instituto Antártico Chileno (INACh). O objetivo principal desta expedição foi o de melhor entender como as mudanças climáticas ocorridas nesta região pode afetar os sistemas locais.

DONC: O que mais te chamou a atenção nesta viagem, em relação às outras que você já realizou?

AA: A infra-estrutura necessária para a realização de uma expedição internacional deste porte é enorme. A localização geográfica do Platô Detroit exigiu a utilização de um avião de pequeno porte (twin otter) para o transporte dos pesquisadores e de toda a carga para o acampamento. O transporte foi realizado pela força Aérea Chilena (FACh) a partir na Base Antártica Chilena Presidente Eduardo Frei, localizada na Ilha Rei George.

DONC: O que você observou de diferente, com relação ao clima, nessa última viagem?

AA: O que mais me chamou a atenção nesta expedição à Antártica foi o volume de neve na região da Ilha Rei George. De acordo com as medidas realizadas pela estação meteorológica instalada na EACF, o inverno de 2007 foi o mais rigoroso dos últimos 20 anos e como conseqüência o grande volume de neve acumulado durante o inverno não havia sido totalmente derretido.

DONC: Muito se comenta sobre o gelo das regiões polares que está derretendo em função do aquecimento global. Isso não está acontecendo na Antártica, e mais especificamente na Península Antártica? O que você viu foi uma exceção?

AA: De acordo com o ultimo relatorio do IPCC, nos ultimos 50 anos de análise a única região da Antártica que apresentou tendência de aumento na temperatura do ar foi a Península Antártica. Nos últimos anos, a maioria dos eventos de derretimento de geleiras, colapsos de plataformas e formação de grandes icebergs foram evidenciados nesta região. O inverno de 2007 foi uma exceção ao que vem sendo observado nesta região. Não podemos falar em resfriamento da região, tomando por base os dados de apenas um ano. Medidas climatológicas contínuas nesta região poderão nos auxiliar a entender melhor o padrão climático local.

DONC: O que são testemunhos de gelo?

AA: São amostras de gelo (cilindros de até 10 cm de diâmetro) coletadas a partir de perfurações realizadas no manto de gelo. Dependendo da região onde são coletados, estes testemunhos de gelo podem ter mais de 3 mil metros de profundidade, podendo preservar registros da história do clima dos últimos 700 mil anos ou mais.

DONC: Por que os testemunhos de gelo são importantes para o estudo das mudanças climáticas?

AA: O gelo, principalmente o encontrado nas regiões polares, representa umas das matrizes mais importantes a serem analisadas quando o interesse é o de entender a variabilidade do clima e as mudanças na química da atmosfera ocorridas ao longo dos anos, pois o gelo armazena um enorme número de informações químicas e climáticas de grande parte da história do planeta.

DONC: Você sempre coleta testemunhos de gelo? O Kenny (pesquisador que trabalha com Alexandre no LARAMG) me disse que da última vez sua equipe coletou um com dezenas de metros…

AA: No acampamento montado no Platô Detroit, realizado em dezembro de 2007, foram coletados dois testemunhos de gelo. O principal com 133 metros de profundidade, representando o maior testemunho já coletado na região da Península Antártica, e o segundo de 20 metros. O testemunho principal será utilizado para investigar as variações do clima e mudanças na química da atmosfera da região, ao longo dos últimos 250 anos. O segundo testemunho será utilizado principalmente para analisar o transporte atmosférico entre a América do Sul e a região da Península Antártica. Para isso, serão analisados compostos provenientes de queimadas, indicadores de poluição ambiental, entre outros. Além dos testemunhos de gelo, foram realizadas diversas amostragens atmosféricas para melhor compreender estes processos de transporte atmosférico regional.

DONC: Qual a importância de se estudar as mudanças climáticas?

AA: Atualmente, entender as respostas ambientais às mudanças climáticas é um dos principais objetivos da ciência. Neste contexto, o Continente Antártico configura-se como a melhor região no planeta para a realização destes estudos, pois além de preservar bem as informações atmosféricas ao longo dos anos, encontra-se distante dos centros geradores de poluição. Além disso, a região da Península Antártica é uma das regiões do planeta mais sensíveis às mudanças climáticas. Entender como o planeta responde as estas variações do clima verificadas atualmente pode permitir uma melhor previsão das repostas ambientais no futuro.

DONC: O que, na sua opinião, cada um – mesmo leigo – pode fazer para ajudar a amenizar as mudanças climáticas?

AA: Segundo o último relatório do IPCC, publicado em 2007, grande parte das mudanças climáticas observadas atualmente é conseqüência da atividade humana nas últimas décadas. Desta forma, atitudes como um menor consumo de produtos originados de combustíveis fósseis, a utilização de fontes de energia limpas, a reciclagem de lixo, a preservação de ambientes naturais, entre outras, podem contribuir para minimizar o impacto coletivo sobre o clima global.

DONC: O que você pensa sobre a adaptação humana às mudanças climáticas?

AA: O impacto da atividade humana sobre o clima já pode ser sentido em todas as partes do planeta. Eventos como maior freqüência de furacões, derretimento de grandes volumes de gelo, períodos de chuvas ou secas mais intensos são algumas respostas às mudanças do clima. Precisamos entender que o nosso modo de vida precisa ser adaptado aos novos tempos. A preservação do modo de vida, como o conhecemos atualmente, pode depender desta mudança de comportamento em uma escala global.

Esta entrevista foi inicialmente publicada em De Olho no Clima.

 


 


 



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