Na última semana, o Oikos publicou a primeira de uma série de entrevistas com os Embaixadores do Clima, jovens entre 17 e 18 anos que vão representar o Brasil na Conferência do G8 + 5 sobre o meio ambiente, a ser realizada em Kobe, no Japão. O paulista Guilherme Pastore abriu a nova seção do site com suas previsões para o Programa.
No momento, os adolescentes estão em Londres, onde encontraram os representantes dos outros 12 países e se dividiram em grupos de trabalho. Para acompanhar um pouco mais desta viagem, na qual será redigida uma Carta de Intenções desta geração, basta clicar aqui.
Hoje, mostramos o papo com a única mulher entre os três vencedores do concurso organizado pela British Council. Laila Soares nasceu na Austrália, veio para o Brasil com três anos e vive de maneira sustentável. Literalmente. Ela mora no Ecocentro IPEC (Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado), espaço fundado por seus pais em 1998 adaptado aos preceitos ecológicos.
Toda a energia de sua casa, por exemplo, é neutralizada. A água, que vem da chuva, é usada na cozinha e tratada para irrigar a horta. O banheiro, compostável, tem ligação direta com o minhoqueiro. Lá, os rejeitos se transformam em húmus e viram adubo para as hortas da família, de onde saem os alimentos orgânicos. A potência do sol, é claro, vira matéria-prima para aquecer o banho das noites frias de Pirenópolis, em Goiás.
Como se não bastasse, Laila ajuda seus pais em trabalhos pelo Brasil e outras nações, o que a impede de estudar em escolas convencionais. Nada que tire o seu bom humor, pelo contrário. Ela até prefere ler as apostilas e fazer as provas dentro de sua própria casa. Nesta entrevista, realizada no escritório do Conselho Britânico, no Rio de Janeiro, a jovem de 18 anos conta um pouco de sua história e do que a aguarda nos próximos meses.
Oikos: Laila, como você ficou sabendo do programa “De Olho no Clima”?
Laila Soares: Bom, foi simples. Meu pai recebeu um e-mail de uma amiga nossa que mora em São Paulo e trabalha com jovens. A mensagem contava sobre a oportunidade que tinha aparecido e, logo em seguida, meu pai me enviou. Daí, é claro, me inscrevi.
Oikos: O que mais lhe interessa no meio ambiente, qual o seu maior estímulo para trabalhar nesta área?
Laila: Eu acredito que a vida sustentável é a solução para as mudanças climáticas, pobreza e fome. Esse é o jeito que eu quero viver e como eu já estou vivendo. Morar em um Ecocentro exige uma responsabilidade de tudo o que você faz. Com a água, por exemplo. Se você lava louça, ela será tratada e servirá para regar as plantas; você bebe a água da chuva, que é limpa e não tem gosto de cloro (risos). Come-se alimentos orgânicos, é possível saber que eles não estão lhe fazendo mal. É muito bom saber que você mora em um lugar assim. A energia é renovável por várias técnicas, como a solar, por exemplo.
Oikos: Eu li no seu perfil publicado no site do “De Olho no Clima”, que você faz parte de um projeto chamado “Habitats” lá em Pirenópolis, onde você mora. Como é esse trabalho?
Laila: O Programa Habitats é o seguinte: vamos para as escolas e, fisicamente, as transformamos em locais mais sustentáveis ecologicamente. As crianças adoram conviver com a natureza e ali mesmo elas podem aprender com ciclos naturais, jardins, e acabam gostando disso desde cedo.
Oikos: E como é essa mudança física, precisamente?
Laila: Quando se chega a uma escola, geralmente há aquele concreto no chão, o único espaço que existe para os alunos brincarem. Por isso, nós quebramos essa estrutura de concreto e montamos jardins, lagos, bancos feitos a partir de técnicas naturais, mini-viveiros e também pensamos em esquemas de reciclagem. Eu acredito muito que, claro, o futuro é de todos. Mas, quando não estivermos mais aqui, as crianças vão levar a prática de cuidado com a natureza. E como elas aprendem mais cedo, vão viver em busca de um mundo sustentável porque cresceram sob este paradigma.
Oikos: O que você pretende fazer como Embaixadora do Clima?
Laila: A mensagem que eu quero passar para todos nesse Programa é que a vida sustentável é possível, é super divertida e não é difícil. Nem um pouco. Viver de forma sustentável não significa, por exemplo, que você precise abrir mão de suas tecnologias, seu computador, enfim. Nada disso. Ela é apenas a solução.
Oikos: Laila, como é a sua história de vida? Você nasceu em um ambiente no qual havia a preocupação ecológica ou isso surgiu depois?
Laila: Meus pais começaram a trabalhar com permacultura ((técnica cunhada em 1970 por dois ecologistas australianos que significa planejar e cuidar de sistemas, como jardins e comunidades, de forma socialmente justa, ecologicamente sustentável e economicamente viável) quando eu nasci, um método de vida que não prejudica a natureza. Pelo contrário, vive em harmonia com ela e dali retira os recursos necessários para a sobrevivência. Então, eu cresci em um ambiente sustentável, em que éramos conscientes do que estávamos ou não fazendo. Na verdade, eu nasci na Austrália e morei lá até os três anos de idade. Depois, vim para o Brasil, direto para Pirenópolis.
Oikos: Conte-nos por favor um pouco da rotina de sua casa. Lá vocês usam cisternas para coletar a água da chuva, placas de captação da energia solar, enfim, como é dia-a-dia de vocês?
Laila: Bom, a minha casa é feita com barro, palha e um pouco de areia. Trata-se de uma técnica usada há muito tempo e o bom dela é que você pode formar um sofá saindo da parede. A nossa água potável é captada da chuva, assim como o restante necessário, e o banheiro é compostável. Depois dali, os rejeitos vão para o minhocário até serem transformados em humus, um tipo de terra mais rico que será encaminhado para a horta. A energia é solar e temos várias hortas e agroflorestas. Como disse, a água da cozinha é tratada e utilizada para irrigar a floresta.
Oikos: Você ainda está no colégio?
Laila: Eu curso o terceiro ano do ensino médio à distância. Por opção minha, na verdade, porque a gente viaja muito, tem trabalho em diversos locais, como Acre e Ceará. Em Portugal também. Mas eu pretendo fazer faculdade de literatura ou biologia.
Oikos: Você trabalha com seus pais?
Laila: Sim, faço muitos trabalhos voluntários, mas também tenho outros tipos. Já ilustrei vários livros do Ecocentro e faço trasbalhos em viveiros e vários trabalhos menores dentro do Ecocentro IPEC, que foi fundado pelos meus pais em 1998.
Oikos: Moram quantas famílias lá hoje?
Laila: É complicado dizer. Moram mais ou menos 25 pessoas. São muitos casais, pessoas solteiras também, muitos jovens. Sempre passa gente lá, é um movimento constante. Às vezes tem 150 pessoas vivendo ali por 15 dias. Agora vão chegar oito novos moradores que vão ficar lá por cinco meses.



