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Saudades dos 18 anos

Felipe Lobo, 4 de março de 2008.

Na última quinta-feira, dia 28 de fevereiro, um coquetel foi organizado no escritório carioca da British Council para receber os três jovens que vão representar o Brasil no programa “Embaixadores do Clima – Módulo Internacional”. Naquele momento, começava um dos mais inovadores projetos de preservação ecológica do país, que vai levar adolescentes de todos os membros do G8+5 (grupo das sete maiores economias do mundo, mais a Rússia, China, Índia, Brasil, África do Sul e México) para o Reino Unido e Japão em 2008. Nos dois locais, rapazes e moças com idades entre 14 e 18 anos terão a oportunidade de retratar suas nações em debates acirrados sobre as possibilidades de combate às mudanças climáticas.

As inscrições foram encerradas em 31 de janeiro com mais de 600 formulários preenchidos via internet por pessoas de todas as regiões do Brasil. Em comum, um único sonho: fazer parte do projeto “De Olho no Clima”. Depois de uma criteriosa análise dos participantes, vinte e um jovens foram escolhidos para a fase de entrevistas. Entre os pré-requisitos básicos exigidos estavam o inglês fluente, a experiência em outros projetos direcionados à conservação da natureza e as capacidades de liderança e multiplicação do tema.

Tamanho rigor faz sentido. Durante as primeiras semanas de março, os três embaixadores vão ter aulas sobre as causas, conseqüências e alternativas de mitigação do aquecimento global. Em cerca de vinte dias, depois de muito estudo, eles embarcam no avião rumo a Londres. Na capital inglesa, vão conhecer os 36 representantes dos outros doze países e encontrar com o secretário de meio ambiente britânico, Killary Benn. A partir daí, a estadia em uma das cidades mais charmosas do mundo será marcada por reuniões com os parceiros internacionais do programa. “Nesses encontros, todos juntos vão escrever uma carta de intenções dessa geração para o futuro do planeta. Ela será apresentada para as principais lideranças mundiais na Conferência do G8+5, em Kobe, no Japão”, ressalta Roberta Simões, gerente do projeto de Mudanças Climáticas da British Council.

Como adiantou Simões, os jovens cruzam o planeta no final de maio rumo à terra do sol nascente. Na ocasião, será realizada a principal convenção sobre o meio ambiente de 2008, organizada pelas Nações Unidas. Será a oportunidade de, na prática, observar como as negociações entre os políticos são longas, exaustivas e cercadas por interesses diversos. Ainda não está decidido, mas é possível que o texto elaborado pelos jovens embaixadores seja lido para todos os presentes em Kobe.

Quem são eles

Os felizes brasileiros que terão a chance de representar o país nas duas viagens e workshops já têm nomes, local de nascimento e idade. Antonio Vogaciano foi o primeiro a fazer um breve discurso de apresentação no coquetel da quinta-feira passada. Cearense de Fortaleza, o rapaz de 18 anos cursa duas faculdades: uma de administração e outra de economia. Apaixonado por números, Vogaciano começou a se interessar pela causa ambiental em 2001, quando entrou para o colégio militar de sua cidade. Depois de participar do Clube de Ciências e promover caminhadas ecológicas na região, se filiou ao WWF em 2006 e começou a palestrar em diferentes instituições de ensino.

Ao descobrir sobre o projeto “De Olho no Clima”, Antonio se debruçou sobre uma quantidade enorme de papéis impressos. Em suas linhas, estavam as palavras escritas para os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Foi a partir das explicações dos vencedores do último Nobel da Paz que seu conhecimento sobre o tema deu um grande salto de qualidade. Para ele, isso pode acontecer com outros jovens. “Muita gente, nessa faixa de idade, não tem uma atitude tão ativa quanto à conservação da natureza porque não sabe da real gravidade do problema. Isso acontece pela falta de informação sobre como isso pode afetar a sua vida. Caso educássemos mais sobre os problemas, conseqüências e causas, a gente teria um exército para trabalhar pelo meio ambiente”.

Este pensamento ganha ressonância na fala de Guilherme Pastore, 17 anos e morador de São Paulo. Seu contato com o meio ambiente, apesar de tão jovem, já é notável. Embora tenha aprofundado seus conhecimentos sobre o aquecimento global nas aulas de química e física do colégio, esse estudante de Direito na USP – principal universidade do país – adquiriu bagagem em outras atividades. Pastore participou de treze simulações de negociações interestatais, promovidas pela Universidade de Harvard, tanto nos limites geográficos do Brasil, como fora deles.

Realizados nos moldes das Nações Unidas, os pequenos debates se parecem muito com a realidade. Há uma mesa mediadora e os interesses dos países expostos em relação aos mais diferentes assuntos: desde mudanças no clima até a disponibilidade de recursos hídricos. “Muitas vezes, até, não se chega a um consenso pelos mesmos motivos que na vida real. O propósito destas reuniões simuladas é entender porque não se encontram soluções no universo político, e não tanto indicar saídas”, explica. Sua intenção como Embaixador, conta, é multiplicar os conhecimentos para o maior número possível de pessoas, uma vez que estará embasado por uma grande instituição.

A terceira e última a falar para o público presente foi a australiana Laila Soares. Aos três anos de idade, ela se mudou para Goiás com os pais e lá continua até hoje. Sua história, no entanto, é ainda mais curiosa. Moradora da pequena Pirenópolis, ela mora no Ecocentro IPEC, um local onde a vida sustentável é levada muito a sério. Sua casa, por exemplo, é absolutamente neutra em carbono. A energia vem do sol e toda a água utilizada é captada da chuva. Uma vez usada nos banheiros ou na cozinha, ela é tratada e disponibilizada para regar as muitas hortas cultivadas pela família, de onde vem o alimento.

Laila se orgulha do jeito calmo com que leva seus dias. Como viaja muito para ajudar os pais em projetos de permacultura (técnica cunhada em 1970 por dois ecologistas australianos que significa planejar e cuidar de sistemas, como jardins e comunidades, de forma socialmente justa, ecologicamente sustentável e economicamente viável), ela decidiu estudar em casa, à distância. Nada que a deixe preocupada. “A mensagem que eu quero passar é que a vida sustentável é possível, é superdivertida e não é difícil. A minha casa, por exemplo, é feita de barro, palha e um pouco de areia. O bom é que você pode formar um sofá a partir de sua parede”, conta, orgulhosa. Ela também participa de um projeto que ajuda na transformação de escolas públicas convencionais em verdadeiros exemplos de baixo impacto na natureza.

O evento

Pelo que se vê, o Brasil estará muito bem representado nas duas viagens. A certeza pôde ser percebida nos discursos de Sital Dhillon, diretor do British Council no Rio de Janeiro, e Tim Flear, Cônsul Geral do Reino Unido no país. Contentes com as escolhas, os dois falaram brevemente sobre os impactos do aquecimento global. “Se o mar subir em 1 (um) metro, 25 milhões de pessoas em Bangladesh vão perder suas casas. Precisamos mudar este quadro”, disse Dhillon. “Guerras já são travadas pela disputa de água e recursos dos mais diversos”.

Flear, por sua vez, contou que o combate à crise ambiental é uma das prioridades do governo britânico. “Nós lideramos o mundo com a revolução industrial. Queremos fazer o mesmo com a revolução do baixo carbono”, disse. Para ele, o Brasil também tem um papel fundamental neste trabalho. Basta seguir três ações básicas: comandar as discussões sobre o clima com outros países do Terceiro Mundo, preservar a rica biodiversidade de seu território e distribuir ao mundo o vasto conhecimento adquirido na produção de etanol. Está na hora da juventude começar a fazer diferença.

 


 


 



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