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Operação desmonte

Felipe Lobo, 24 de março de 2008.

Em nenhum outro momento da história a humanidade foi instigada a realizar, num intervalo de tempo tão curto, tantas escolhas absolutamente necessárias e urgentes em favor da própria sobrevivência. Quis o destino que as atuais gerações fossem confrontadas com essa dura realidade: o que fizermos ou deixarmos de fazer agora repercutirá intensamente na qualidade de vida de quem já está por aqui, e principalmente sobre aqueles que estão por vir. Não importa o quanto cada um se sinta mais ou menos responsável por essa crise ambiental sem precedentes: a capacidade de reagirmos a ela será nosso maior legado.

Abusamos do direito de errar na calibragem da exploração dos recursos naturais não- renováveis fundamentais à vida, e precipitamos a exaustão dos estoques de água doce e de biodiversidade, de matéria-prima e energia. Ignorar a avalanche de dados científicos que denunciam o risco de colapso é apostar na sobrevivência de um modelo de desenvolvimento visceralmente suicida. Pode-se discutir quanto tempo o planeta ainda resiste ou a capacidade de nos adaptarmos a cenários invariavelmente sombrios, mas não se discute a necessidade da mudança.

É preciso, portanto, abrir caminho para uma imensa reengenharia em escala global que empreste novos fundamentos ao processo de desenvolvimento. Fundador do Worldwatch Institute, hoje à frente do Earth Policy, Lester Brown fala-nos da “Eco-economia” como resposta à falta de sincronia entre os modelos de desenvolvimento e os sistemas naturais da Terra. Considerado pelo jornal Washington Post como um dos mais influentes pensadores do mundo, Brown explica que “uma economia ambientalmente sustentável – uma eco-economia – requer que os princípios da ecologia estabeleçam o arcabouço para a formulação de políticas econômicas e que economistas e ecólogos trabalhem, em conjunto, para modelar a nova economia”.

O professor e escritor Ignacy Sachs fala em Ecodesenvolvimento para explicar a urgência de um novo modelo onde os fundamentos econômicos incorporem as variáveis sociais e ambientais, e seja possível realizar “a busca de estratégias para se promover o melhor uso possível dos recursos específicos de cada ecossistema, visando à satisfação, mediante uma grande variedade de meios e tecnologias apropriadas, das necessidades básicas das populações interessadas”.

Talvez uma das iniciativas mais criativas para fomentar o debate e a reflexão sobre o que seria esse novo modelo de desenvolvimento seja o “Ethical Markets”, série de televisão concebida há dois anos pela escritora Hazel Henderson, que alcança 45 milhões de domicílios nos Estados Unidos e que também inspirou a criação de um site comprometido com a disseminação de novos valores no mundo dos negócios. Crítica ferrenha da visão reducionista e simplista que ainda inspira muitos economistas, Hazel abriu caminho na mídia para falar de sustentabilidade, princípios éticos planetários e novos indicadores econômicos. A iniciativa inspirou o aparecimento no Brasil da “TV Mercado Ético”, um portal na internet onde é possível baixar gratuitamente entrevistas com pessoas reconhecidamente sérias nos meios em que atuam e incomodadas com as mesmas coisas. Oscar Motomura, Ricardo Young, José Monforte, Hélio Mattar, Homero Santos, entre outros convidados, explicam suas opiniões sobre temas variados sem perder de vista que o objetivo ali é fomentar novas idéias e atitudes na construção desse novo modelo.

Outra pista para entender o prestígio crescente desses novos conceitos junto aos agentes econômicos foi o depoimento dado pelo economista chefe de um dos maiores bancos do varejo do mundo, o brasileiro Hugo Penteado, em entrevista a Flávia Oliveira, de O GLOBO, em sua coluna Negócios & Companhia do dia 7/4/2007. “Há muita ênfase no crescimento econômico como solução, embora ele sempre venha acompanhado de ruína social e ambiental. (…) Há que se pensar numa revisão total dos mitos da teoria econômica. Vive-se na armadilha do “quanto mais cresço, mais tenho de crescer”. Isso acontece porque, sem crescimento, os sistemas corporativos e tributários irão à falência”.

O arcabouço teórico está bem sedimentado e o processo de transformação em curso não agrada a alguns setores da economia que ainda se locupletam da exploração insustentável dos recursos. A boa notícia é que o concreto já rachou, a operação desmonte está em curso, e o que virá depois deverá ser algo mais comprometido com a igualdade, a justiça e a sustentabilidade.

*André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ. Apresenta o “Jornal das Dez” da Globo News e é editor do “Cidades e Soluções”, premiado programa do mesmo canal. Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, é autor do livro Mundo Sustentável – “Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005) e coordenador editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

 


 


 



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