A 60 quilômetros de Piracicaba, no interior de São Paulo, há uma área de mata cuja importância mal cabe em seus 2 mil e 200 hectares. Pelas suas picadas, atrás de primatas como os muriquis e aves como o tangará de chifre, cujo diminuto corpo, todo negro, foi abençoado pela natureza com um esplendoroso topete vermelho, andou desde a década de 50 gente de credenciais científcas e conservacionistas impecáveis. Entre eles o primatólogo Russel Mitermeyer, o ornitólogo Edwin Willis e um dos pais do movimento ambientalista brasileiro, Paulo Nogueira Neto.
O que transformou essa pequena floresta numa espécie de meca da ciência e da conservação foi a sua raridade, uma atribuição que tem mais a ver com a escassez do que com a biologia. Até 70 anos atrás, ela era apenas um naco da Mata Atlântica de planalto que cobria o solo da região. De lá para cá, tornou-se praticamente o único remanescente florestal significativo desse ecossistema entre os rios Piracicaba e Tietê. Esse feito se deve a três gerações de uma única família. Em especial a José Carlos, um dos sete filhos do patriarca Carlos Leôncio (Nhô Nhô) Magalhães, que fundou por lá uma fazenda de 26 mil hectares, a Barreiro Rico.
Caçador exímio na juventude e mateiro dos bons, José Carlos tornou-se um profundo estudioso de nossas aves. Helmut Sick, um dos bambas do assunto, demonstrou a admiração pelo seu trabalho citando-o diversas vezes em sua obra-prima, Ornitologia Brasileira. José Carlos ajudou a mapear a ecologia de várias espécies e doou boa parte dos espécimens de avifauna de um dos mais importantes museus de Zoologia das Américas, o da Universidade de São Paulo. Foi dele a decisão de manter a mata protegida a qualquer preço e franquear a ela o acesso de cientistas.
A iniciativa rendeu quase uma centena de estudos sobre a vida de mamíferos, insetos e aves da Mata Atlântica, alguns deles já extintos na região. José Carlos morreu em 2003. Mas a sua floresta, na maior parte ainda em mãos de herdeiros diretos, continua mais importante do que nunca. E a boa notícia é que um de seus filhos, Carlos Leôncio como o avô, decidiu abrir o lugar a visitantes que não têm credenciais científicas, mas carregam no sangue a mesma paixão do pai por árvores e por aves. É uma ótima oportunidade para se descobrir como o Brasil um dia foi lindo.
* Manoel Francisco Brito é formado em história e é jornalista desde 1995. Foi editor executivo do Jornal do Brasil e da revista Veja e hoje é repórter especial de O Eco.



